Desativa-se uma casa

Foram 13 anos. O coração fica pequenininho e os olhos, úmidos. Para isso, basta lembrar que o lugar que tive como minha segunda casa por tanto tempo será desativado. Amanhã, o prédio localizado na Rua Euclides da Cunha, 264, deixará oficialmente de abrigar o Centro de Ciências da Comunicação e Artes (CCA), da Universidade Católica de Santos (Unisantos).
No Campus Pompeia, onde funcionava a antiga Faculdade de Comunicação de Santos (Facos) e também meu querido colégio Liceu Santista, um almoço de despedida marca o fim desse espaço acadêmico tão mágico para tanta gente. Mágico não apenas pelos tijolos feiosos, resistentes e tão característicos, nem pelo delicioso capuccino da cantina do Ricardo, que a Beth fazia como ninguém, ou pelos laboratórios de fotografia, de rádio, de TV e até o Codig e a redação. Mágico porque foi nesse prédio, que provavelmente virará poeira, que eu cresci, amadureci e me transformei em quem sou.

Lembro perfeitamente da primeira vez em que pisei lá: meus pais precisavam trocar eu e meu irmão de colégio, porque a mensalidade do anterior estava crescendo exorbitantemente, e passei por uma prova para atestar que eu tinha capacidade e conhecimento para ingressar na 2ª série. E confesso: eu, sempre péssima com números, contei com a ajudinha da minha mãe em uma ou duas questões de matemática. Sim, foi cola pura, mas a querida tia Deise, que aplicou o teste, não fazia a mínima ideia de que aquela dupla com carinhas tão puras seria capaz de tal transgressão.

Quando tudo começou

Quando tudo começou

Dali em diante, começou minha história de amor com esse lugar. Como mencionei logo de início, foram 13 anos – nove de Liceu Santista e quatro de faculdade. Sempre passei muito mais tempo lá do que na minha própria casa. Afinal, não eram só as aulas, havia também a educação física, os trabalhos em grupos, os cursos de teatro, dança e técnico em informática, o cursinho e, anos depois, novamente surgiram os trabalhos em grupo, o estágio na agência junior de jornalismo, o diretório acadêmico, o trabalho de conclusão de curso, a comissão de formatura…

Eu participava de tudo o que podia e, hoje, olhando para trás, acho que era uma forma de tentar alongar a permanência nesse espaço que até hoje me encanta e inunda de emoção. Emoção trazida pelas lembranças alegres e tristes, agitadas e ternas, distantes e eternas. Foram tantos aprendizados, encontros, desencontros, descobertas, brigas, farras, amizades e amores que imaginar aqueles corredores e o pátio vazios me parecem um pecado, como se estivessem privando outros jovens de sentir o espírito gostoso emanado por aquelas portas, janelas e carteiras.

Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, mas com o boom imobiliário que rola em Santos, creio que o campus será comprado por alguma construtora. E, quando passar em frente do novo condomínio e olhar para os novos moradores, sentirei como se tivesse sido desalojada para que aquelas pessoas invadissem aquela casa que era minha até pouco tempo atrás.

O coração aperta, as lágrimas brotam, e as lembranças, eternas enquanto duraram, ressurgem, nítidas, vivas e sempre belas. Essas palavras escritas às pressas são meu luto pelo fim de um lugar que será sempre meu.

Lá, no pátio

Lá, no pátio

22 respostas para Desativa-se uma casa

  1. Roberto disse:

    Você bem sabe que, embora por menos tempo, aquilo foi minha segunda casa também. Por sete anos (quatro de faculdade e três de depressão pós-formado) frequentei dias e noites aquelas salas de aula, aquele pátio, aquela cantina.
    Alegrias, tristeza, amizades, amores, capuccino, cerveja…
    Sete anos é coisa pra caramba, tempo pra acontecer de tudo com a vida da gente, mas o que jamais esquecerei é que foi lá, na porta de uma das salas de aula, apresentado por uma amiga, que conheci a mulher da minha vida!

  2. Dayane disse:

    Débora querida, o meu tempo foi bem mais curto! Dois anos, somente… Pois, o meu curso foi “despejado” para o Dom Idílio, na Conselheiro Nébias, logo que começaram a desocupar o prédio da Euclides para chegar na situação atual: totalmente desativado.
    Mesmo tendo ficado pouco tempo, entendo bem a sua emoção sobre a antiga Facos.
    O seu texto me trouxe a imagem dos meus amigos sentados na escadaria jogando conversa fora. Lembrei daquele ambiente com jeito de faculdade – não como um shopping center, o que se transformou toda a Unisantos. E todos os gostos e desgostos da vida universitária por lá, vieram como um filminho na minha cabeça!
    Como toda lembrança boa carrega uma dose de saudade, o meu comentário é puro deleite… e um jeito de compartilhar essa memória afetiva! Porque 13 anos é tempo pra cacete, e a comoção é absurda… não tenho dúvidas.
    Um beijão=)

  3. guilherme disse:

    Cara, foa isso! Imagino como está se sentindo. Tenhos espaços equivalentes a esse na minha vida e sei o quanto eles são importantes. O bom é saber que lá nas nossas lembranças eles nunca serão destruídos. Abraço.

  4. Aline disse:

    O sumiço de um lugar que foi tão presente, como este em sua vida, deve ser doloroso… é uma pena, um lugar cheio de histórias, sonhos e esperanças. Pena.
    Beijos p/ vc.

  5. cjabruno disse:

    Eh amore eu fui lá… E fiz meu relato tb.

    Foi triste e feliz. Vc devia ter ido nem precisava confirmar, afinal pra estar em casa não precisa avisar!

    hehe O show da Bruna Caram eh o máximo, vale a pena.

    saudade mil d vc.

    bjo

  6. Luciene Câmara disse:

    Deby, lendo seu texto, consegui enxergar vários lugares que marcaram a minha vida, a maioria em Campo Grande, minha grande morada, e vários aqui, por onde ainda transito, mas que um dia ficarão apenas na memória e nos passeios nostálgicos. Afê, essas coisas mexem demais comigo, você mais uma vez trouxe à tona sentimentos, emoções, isso é tudo, tudo. Parabéns. Beijos da Lu.

  7. Bruno Marques disse:

    Débora! Poxa, não sabia que o prédio será demolido! Adorei o texto e confesso ter me procurado na foto, mas era de outra classe, da Tia Silvana. De fato irão demolir o palco de nossa infância, a nossa segunda casa como você disse. Guardo as melhores lembranças da infância feliz que tive lá, mas o importante é que nossas memórias jamais estarão entre as ruínas!
    Beijão!

  8. Bella disse:

    Oiee Débora! Adorei! Emocionante o texto!!! Me encaixei em algumas frases, relembrei muitos momentos vividos em 10 anos de Liceu Santista nesse prédio, porque o 11º foi no novo. Enfim… muita saudade vai ficar, as lembranças então… nossa, mais ainda! Mas estaremos sempre aqui pra relembrar, pra reviver tudo, agora com o que ficará guardado no coração! Beijos

  9. Fausto disse:

    Débora, aqui perto da Luares, existe a Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo. Lá estudei e me formei na década de 1970. Foram anos muito intensos de estudos e lutas estudantis. Hoje, todos os dias, antes de vir para a Luares, passo no casarão que abriga a faculdade e fico por algum tempo na biblioteca lendo jornais ou acessando a internet. Às vezes, fico sentado na mesa da calçada do bar da esquina e, de repente, passa um colega daquela época e conversamos muito. Enfim, é um espaço de minha memória que continua preservado. Seu texto me ajudou a refletir sobre os espaços que fizeram história em minha vida e que, infelizmente, já estão quasse todos destruídos.

  10. Manoela Calabresi disse:

    Olá!
    Não nos conhecemos, mas foi por acaso que esbarrei no seu blog. Me encantam as pessoas que escrevem bem, e por isso acabei lendo alguns posts. Esse em especial me deixou arrepiada pela maneira como descreveu seus sentimentos e lembranças. Não faço idéia de como seja esse lugar, porque sou de Curitiba, mas logo me ocorreu uma nostalgia dos meus tempos de colégio, e já comecei a sentir saudades da faculdade, desses três anos que já passei lá e dos próximos dois.
    Mas enfim, só gostaria de deixar um comentário singelo e parabenizá-la por se expressar tão bem. Sucesso!

  11. simone ribeiro disse:

    Eu tbm acho que o prédio será demolido para dar lugar a um novo empreendimento imobiliário do boom santista!!

    E me parte o coração! Eu moro perto da Facos e quando passo por ali e penso em tanta coisa que todos nós vivemos e que vai desaparecer logo, logo…dá uma certa nostalgia já…

    Fogo. Bacana seu blog! Parabéns.

  12. Lucas Dabus disse:

    Débora, não tinha lido isso ainda. Estou escrevendo e lembrando dos bons momentos daquela escola (muito aliás), confesso pra vc que fiquei emocionado quando passei por lá no dia que estavam tirando as cadeiras, estava a pé e fui andando pensando o quanto aquele prédio fez parte da minha vida, muitas coisas que vc escreveu nesse texto, posso te dizer que fiz parte (pois estudamos juntos muitos anos, praticamente todos os anos de Liceu)
    Parabéns pelo seu texto, nota 10!!!

  13. Flávia Elisa Baquedano disse:

    Ai Débora, que emoção senti lendo seu texto!
    No dia em que passei lá e estavam preparando para a demolição, senti um vazio tão grande que nem soube explicar pra quem no momento me acompanhava.
    Passamos por momentos lá que levaremos na nossa memória, pro resto de nossas vidas. É né, fazer o que se nossa segunda casa foi vista como mais um meio de fazer negócios!? Pra sempre estará em nossos corações, juntamente com a lembrança de nossa longa convivência entre amigos. Texto lindo!
    Beijos

  14. Henrique de Queiroz Teodosio disse:

    Senti a mesma coisa que o Flávia e o Lucas descreveram, passei por acaso de carro na frente do antigo prédio do Liceu Santiata, e vi que já estava praticamente inteiro demolido, parei o carro de susto na próxima esquina e desci para ver o que estava acontecendo.

    Senti uma sensação de que estou ficando velho, e que as memórias e as certezas do meu passado não existem mais, lugares que eu frequentava na minha infância em Santos estão sumindo, quando fico algum tempo sem ir para lá e volto, me deparo com uma nova cidade, aquela cidade que existia em minhas memórias está se transformando e quase não existe mais…

    Uma mistura de incertezas e surpresas que fazem parte de nossa vida, novas memórias se formam e velhas ficam guardadas…

    Melhor ainda ler os comentários das pessoas que fizeram parte da minha infância e parte da minha adolescência…

    Parabéns pelo texto Débora, escolheu a profissão certa, o jornalismo..

    Beijos e obrigado por me fazer recordar…

  15. Guilherme Cordeiro disse:

    Debora muito bom o texto… Sem dúvida um lugar que deixará saudades… passei na frente e vi o “buraco” que ficou e não tinha noção do espaço que tinhamos para aprender e nos divertir. Do Leopoldinho ao PD foram 10 anos indo todos os dias para la e conhecendo pessoas incríveis. Um lugar na memória de todos…

    Novamente parabéns!

  16. Samir Blanco disse:

    É exatamente isso que todos que passaram anos ali sentiram quando souberam ou viram… comigo não foi diferente, uma parte da minha história se foi mas vai ficar guardada pro resto da vida em minha memória. Tantas coisas vividas… momentos bons e ruins.
    Débora parabéns pelo excelente texto, um beijo.

  17. solange disse:

    ah Débora,lindo o texto mesmo, li há um tempo já,descobri sem querer e foi assim que me senti como seus amigos e vc…um vazio,só que comigo foi diferente…a saudade é a que senti de estar do lado de fora do LICEU…mãe de treis ex alunos,a saudade era de levar,buscar,ficar esperando no patio, ver apresentações do dia das mães,as reuniões de pais e mestres,as chamadas na diretoria(foram poucas)mas de uma me lembro bem,me chamaram bem cedinho ,as aulas começavam as 7.10 lembra? dizendo que meu filho mais velho hj com 36 anos,não poderia entrar na escola,estava com um casaco que não era da cor do LICEU…prá que rsrs ele virou uma fera…se revoltou dizendo que nem tds os alunos tinham grana prá ter uniformes, e que o importante era o desempenho do aluno e não a cor do casaco, escreveu uma carta à diretoria Maria Helena,se não me engano….a carta fez o efeito que ele queria…começaram a mudar as coisas…desde que tivesse o logo do LICEU seria permitido outras cores em casacos e tenis, pronto…assim que ele foi comunicado disso…cortou o viéz ( contorno ) das camisetas e assim td mudou…meio rebelde prá época,tbm foi o musico que montou a primeira banda de rock escolar do LICEU… hj um grande homem e profissional….saudades dessa época sim. Parabéns pelo blog,bjks

    Solange Vieira Nobre

  18. Bruno M.A.Colombo Baborsa disse:

    Belas palavras. Estava passando por la no dia que começaram a demolir..e a cada tijolo quebrado ou parede derrubada eu sentia como se uma parte de mim fosse junto..mas depois de meia hora olhando para o prédio sentindo aquele turbilhão de lembranças eu percebi que para mim não seria a presença do prédio que me faria sentir mais ou menos saudades, mas sim o poder recordar com as pessoas que fizeram parte desta fase de minha vida…o máximo que pode acontecer comigo no futuro é olhar para o prédio cheio das pessoas que nos “desapropriaram” e conseguir ver apenas o velho e bom Liceu Santista com todos aqueles amigos e aquele som típico das vozes de várias crianças brincando…Bons tempos não voltam, mas ficam eternizados em nós..

    Parabéns texto..beijos

  19. Renan Ferreira de Jesus disse:

    Da primeira vez que vi tudo abaixo, limpo e sem nenhum escombro para contar história, confesso que foi um baque. Sabia que iria acontecer, mas não deu o tempo para minha cabeça aceitar o fato consumado.

    Foi daí que caiu a ficha e me passou um resumo de 8 anos que estive naquele prédio. Oito anos para lá de felizes e importantes de minha vida.

    A vida foi muito generosa comigo nas “casas” onde estive. E lá foi, sem dúvida, uma das mais importantes. Devo a ela muito o que eu passei por lá: pelo que aprendi, pelos amigos fiz, pelos momentos que passei, pelas responsabilidades que tive que assumir, enfim, foi a minha base para ser a pessoa que sou.

    O tijolo se foi, mas ficará a lembrança.
    E esta, sempre será indestrutível.

  20. Ricardo Abud disse:

    Não tenha dúvidas de que todos nós que estudamos durante muitos anos lá temos a mesma história de amor que você teve com esse lugar. No Liceu fiz amigos para a vida inteira… quando soube da demolição do prédio senti a mesma coisa que o Bruno sentiu. O prédio vai, mas como nosso amigo Renan citou a lembrança é indestrutível.

  21. Patrícia Fagueiro disse:

    Debinha amada,
    Passei nove anos nesse prédio…. 3 de Leopoldinho, 2 de Liceu Santista e 4 de faculdade… senti muitissimo quando vi o entulho, depois o terreno limpo, e agora o tal do Colours… vão-se embora as nossas referências… o espaço físico de nossas lembranças…lembro a emoção de poder estudar novamente naquele espaço em 2003, após 9 anos de tê-lo deixado (a contragosto). Amei o seu texto e tenho certeza que vc guarda boas lembranças nossas na faculdade assim como eu também reservo um espaço especial para elas no meu coração. Um grande beijo. Te adoro!

  22. Gente, adorei todos os comentários. Muito obrigada pela visita!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: