Com Letra Maiúscula #3: Realidade e ficção – esse tal de jornalismo literário

Clássico é clássico. Não me julgo capaz de analisar um trabalho tão importante, consagrado por uns e detestado por outros, apenas por tê-lo lido. Portanto, o que registro aqui são apenas alguns comentários sobre um livro arrebatador.

Dizem que quem cria muita expectativa normalmente se decepciona. Concordei com essa premissa a vida toda, mas isso começou a mudar ao ler A Sangue frio (1965), do polêmico, ambicioso e adorado Truman Capote, obra que demorou seis anos para ser entregue aos editores da The New Yorker, revista semanal que a publicou.

E convenhamos que, diante de um marco da literatura americana, que o próprio autor anuncia como sendo a inauguração de um novo gênero – o romance de não ficção –, o sentimento não poderia ser outro. Antes mesmo de finalizar a leitura do livro, já sabia que seria preciso rever meus conceitos.

É daquelas obras-primas indicadas nas faculdades de comunicação e que todo mortal interessado em boas histórias deveria devorar. Após adiar a leitura por anos, o livro praticamente caiu no meu colo (valeu, Alex!) e finalmente chegou a hora de conferir que raio de borogodó é esse. Rendi-me.

A história relatada por Capote é sabida desde que o livro é adquirido, não tem mistério. “A história dos quatro membros da família Clutter, brutalmente assassinados, e dos dois criminosos, executados cinco anos depois” é o resumo apresentado na capa da edição publicada pela Companhia das Letras, na série Jornalismo Literário. Ou seja, o leitor chega à primeira página já ciente de que dois mequetrefes matam a família em questão e do destino que ambos tiveram. Nunca gostei de saber antes da hora o que acontece no término de livros, filmes, séries, novelas, enfim, qualquer obra com começo, meio e fim. Cá com meus botões, pensei: como é que eu vou gostar de A Sangue Frio? Simplesmente gostando, porque, desfrutando do trajeto, é impossível não gostar.

Truman Capote prova por A mais B que é um excelente contador de histórias, fator há tempos ausente no jornalismo. Independentemente de os fatos serem reais ou não (há especialistas que questionam a veracidade de alguns acontecimentos retratados e acreditam em uma postura tendenciosa e/ou pessoal do autor), o mergulho na vida – e na morte – dos assassinos Dick e Perry, das vítimas da família Clutter e dos personagens de Kansas City e arredores após esse crime brutal é intenso e arrasador.

Ao examinar a realidade com traços literários, o escritor nos leva a reflexões sobre temas mais pesados, como violência, ética, religião, educação, desigualdade social, pena de morte, e também nos transporta para ambientes pacatos de rotina simples em pequenas comunidades dos Estados Unidos, com passeios ao sol, cavalgadas no rio e grandes milharais.

Nenhum trecho foi redigido em primeira pessoa, mas Truman Capote está inteirinho lá, nas páginas de A Sangue Frio. Até mesmo o interesse do autor pelo assassino confesso Perry aparece com certa nitidez – fator que, aliás, pode levar o leitor à predileção pelo personagem; apesar do histórico homicida, seu passado mais distante gera uma certa comoção.

Deixei-me envolver e nem senti a passagem das 440 páginas. A combinação crime chocante + tom irônico + relato profundo e apaixonado tornam a leitura visceral e fascinante. Indiscutivelmente imperdível.

Avaliação:  ★★★★★

6 respostas para Com Letra Maiúscula #3: Realidade e ficção – esse tal de jornalismo literário

  1. Luciene Câmara disse:

    Olha, Deby, você nos surpreende, menina. É realmente ousado falar sobre A Sangue Frio e Truman Capote, mas senti muita naturalidade nos seus comentários, muito legal mesmo. Fiquei ainda mais ansiosa para ler o livro(que vergonha dizer isso, mas é verdade, ainda não li..kkkk). Beijos.

  2. cjabruno disse:

    saudade de vc… vir aqui amenisa algo como 1%

    =D

    te amo

  3. Carol disse:

    oiii debs..adorei o post… saudadess..bjs!

  4. Amanda Serra disse:

    Esse livro é demais, li na faculdade!!! Realmente muitos jornalistas se esquecem que a nossa função é contar histórias e o Capote dá uma aula nesse sentido…
    Bjs

    • Amanda, tem razão. No dia a dia, às vezes contar uma boa história acaba ficando em segundo plano. Uma pena, pois é tão prazeroso para quem escreve quanto para quem lê, né?!
      Obrigada pela visita!
      Beijos

  5. Oi, Débora!
    Fazia um tempinho que não passava por aqui. E, logo, ao revisitar sua página, deparei-me com esse texto. Muito bom! Concordo com você: às vezes, mesmo tendo ciência do resumo não significa que conhecemos o conteúdo de uma obra. E é assim com “A Sangue Frio”.
    Um beijão!

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