Desativa-se uma casa

10/07/2009
Foram 13 anos. O coração fica pequenininho e os olhos, úmidos. Para isso, basta lembrar que o lugar que tive como minha segunda casa por tanto tempo será desativado. Amanhã, o prédio localizado na Rua Euclides da Cunha, 264, deixará oficialmente de abrigar o Centro de Ciências da Comunicação e Artes (CCA), da Universidade Católica de Santos (Unisantos).
No Campus Pompeia, onde funcionava a antiga Faculdade de Comunicação de Santos (Facos) e também meu querido colégio Liceu Santista, um almoço de despedida marca o fim desse espaço acadêmico tão mágico para tanta gente. Mágico não apenas pelos tijolos feiosos, resistentes e tão característicos, nem pelo delicioso capuccino da cantina do Ricardo, que a Beth fazia como ninguém, ou pelos laboratórios de fotografia, de rádio, de TV e até o Codig e a redação. Mágico porque foi nesse prédio, que provavelmente virará poeira, que eu cresci, amadureci e me transformei em quem sou.

Lembro perfeitamente da primeira vez em que pisei lá: meus pais precisavam trocar eu e meu irmão de colégio, porque a mensalidade do anterior estava crescendo exorbitantemente, e passei por uma prova para atestar que eu tinha capacidade e conhecimento para ingressar na 2ª série. E confesso: eu, sempre péssima com números, contei com a ajudinha da minha mãe em uma ou duas questões de matemática. Sim, foi cola pura, mas a querida tia Deise, que aplicou o teste, não fazia a mínima ideia de que aquela dupla com carinhas tão puras seria capaz de tal transgressão.

Quando tudo começou

Quando tudo começou

Dali em diante, começou minha história de amor com esse lugar. Como mencionei logo de início, foram 13 anos – nove de Liceu Santista e quatro de faculdade. Sempre passei muito mais tempo lá do que na minha própria casa. Afinal, não eram só as aulas, havia também a educação física, os trabalhos em grupos, os cursos de teatro, dança e técnico em informática, o cursinho e, anos depois, novamente surgiram os trabalhos em grupo, o estágio na agência junior de jornalismo, o diretório acadêmico, o trabalho de conclusão de curso, a comissão de formatura…

Eu participava de tudo o que podia e, hoje, olhando para trás, acho que era uma forma de tentar alongar a permanência nesse espaço que até hoje me encanta e inunda de emoção. Emoção trazida pelas lembranças alegres e tristes, agitadas e ternas, distantes e eternas. Foram tantos aprendizados, encontros, desencontros, descobertas, brigas, farras, amizades e amores que imaginar aqueles corredores e o pátio vazios me parecem um pecado, como se estivessem privando outros jovens de sentir o espírito gostoso emanado por aquelas portas, janelas e carteiras.

Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, mas com o boom imobiliário que rola em Santos, creio que o campus será comprado por alguma construtora. E, quando passar em frente do novo condomínio e olhar para os novos moradores, sentirei como se tivesse sido desalojada para que aquelas pessoas invadissem aquela casa que era minha até pouco tempo atrás.

O coração aperta, as lágrimas brotam, e as lembranças, eternas enquanto duraram, ressurgem, nítidas, vivas e sempre belas. Essas palavras escritas às pressas são meu luto pelo fim de um lugar que será sempre meu.

Lá, no pátio

Lá, no pátio


Escola de fim de semana

28/06/2009

No dia em que o Brasil conquista a Copa das Confederações pela terceira vez, posto aqui a visão de um momento pueril dos campinhos que podem transformar pequenos pernas de pau em célebres jogadores de futebol. O texto foi escrito após um exercício proposto pela Monica Martinez, durante o curso Redação Criativa, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.

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Somos o país do futebol e a maior torcida do estado é, como todos sabem, a do Corinthians. Por isso não me espantou ver três daqueles 12 ou 13 meninos com apetrechos do clube. Pouco mais de meio-dia e aqueles garotinhos, numa manhã ensolarada de sábado, dedicavam-se a esse esporte que é paixão nacional. Algo nada extraordinário, e é justamente daí que vem sua beleza.

“Pô, eu não te falei para marcar ele? Ele é esperto, tem que ficar em cima dele?”, diz um dos rapazinhos alvinegros para o amigo de camiseta vermelha, depois do gol sofrido. O pequeno corintiano, percebendo que talvez tenha pegado pesado, vira-se novamente para o colega, dessa vez com mais cordialidade. “Poxa, fica em cima dele, tá bom?”, insiste.

A outra criança limita-se a um singelo aceno com a cabeça. Havia pássaros cantando, mas ele não ouviu. Um cachorrinho yorkshire não parava de resmungar, mas o nosso jogador nem ligou. Ele falhara. O cara do time adversário passou por ele antes de concluir a jogada e ele não conseguiu detê-lo. É, ele falhara. Magoa-se com a bronca, mas logo parte agitado para o jogo, afinal, mais do que nunca, precisa mostrar que é bom de bola.

O ressentimento logo passa – como sempre acontece na infância – e o nanico, que durante toda a partida se agachou para amarrar as já gastas chuteiras, logo bate na mão do moleque que tinha acabado de repreendê-lo. A equipe ganha a partida e o garotinho atrapalhado, percebendo que estava sendo observado, se exibe. “É, ganhamos mais uma, ganhamos mais uma”! Ele já treina a postura de craque, mas os olhos, ah, esses são só de um menino.

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Pena que eu estava sem minha câmera fotográfica. O dia estava realmente lindo e eu gostaria muito de ter registrado, não apenas na memória, a carinha do pequeno…