Com Letra Maiúscula #3: Realidade e ficção – esse tal de jornalismo literário

08/08/2010

Clássico é clássico. Não me julgo capaz de analisar um trabalho tão importante, consagrado por uns e detestado por outros, apenas por tê-lo lido. Portanto, o que registro aqui são apenas alguns comentários sobre um livro arrebatador.

Dizem que quem cria muita expectativa normalmente se decepciona. Concordei com essa premissa a vida toda, mas isso começou a mudar ao ler A Sangue frio (1965), do polêmico, ambicioso e adorado Truman Capote, obra que demorou seis anos para ser entregue aos editores da The New Yorker, revista semanal que a publicou.

E convenhamos que, diante de um marco da literatura americana, que o próprio autor anuncia como sendo a inauguração de um novo gênero – o romance de não ficção –, o sentimento não poderia ser outro. Antes mesmo de finalizar a leitura do livro, já sabia que seria preciso rever meus conceitos.

É daquelas obras-primas indicadas nas faculdades de comunicação e que todo mortal interessado em boas histórias deveria devorar. Após adiar a leitura por anos, o livro praticamente caiu no meu colo (valeu, Alex!) e finalmente chegou a hora de conferir que raio de borogodó é esse. Rendi-me.

A história relatada por Capote é sabida desde que o livro é adquirido, não tem mistério. “A história dos quatro membros da família Clutter, brutalmente assassinados, e dos dois criminosos, executados cinco anos depois” é o resumo apresentado na capa da edição publicada pela Companhia das Letras, na série Jornalismo Literário. Ou seja, o leitor chega à primeira página já ciente de que dois mequetrefes matam a família em questão e do destino que ambos tiveram. Nunca gostei de saber antes da hora o que acontece no término de livros, filmes, séries, novelas, enfim, qualquer obra com começo, meio e fim. Cá com meus botões, pensei: como é que eu vou gostar de A Sangue Frio? Simplesmente gostando, porque, desfrutando do trajeto, é impossível não gostar.

Truman Capote prova por A mais B que é um excelente contador de histórias, fator há tempos ausente no jornalismo. Independentemente de os fatos serem reais ou não (há especialistas que questionam a veracidade de alguns acontecimentos retratados e acreditam em uma postura tendenciosa e/ou pessoal do autor), o mergulho na vida – e na morte – dos assassinos Dick e Perry, das vítimas da família Clutter e dos personagens de Kansas City e arredores após esse crime brutal é intenso e arrasador.

Ao examinar a realidade com traços literários, o escritor nos leva a reflexões sobre temas mais pesados, como violência, ética, religião, educação, desigualdade social, pena de morte, e também nos transporta para ambientes pacatos de rotina simples em pequenas comunidades dos Estados Unidos, com passeios ao sol, cavalgadas no rio e grandes milharais.

Nenhum trecho foi redigido em primeira pessoa, mas Truman Capote está inteirinho lá, nas páginas de A Sangue Frio. Até mesmo o interesse do autor pelo assassino confesso Perry aparece com certa nitidez – fator que, aliás, pode levar o leitor à predileção pelo personagem; apesar do histórico homicida, seu passado mais distante gera uma certa comoção.

Deixei-me envolver e nem senti a passagem das 440 páginas. A combinação crime chocante + tom irônico + relato profundo e apaixonado tornam a leitura visceral e fascinante. Indiscutivelmente imperdível.

Avaliação:  ★★★★★


Com Letra Maiúscula #1 – Eliane Brum

04/03/2010

Pensei em iniciar esse texto dizendo como a conheci, começando pelo começo. Só então me dei conta de que não me lembro. Sabe essas coisas da vida que simplesmente já fazem parte da gente? Enfim, não me recordo do “como, quando, onde” – falha grave para uma jornalista –, mas são só detalhes. Puxa vida, já estou me contradizendo: ela me ensina, semanalmente, a importância dos detalhes, do olhar de verdade para as pequenas coisas – e as grandes também.

Ela me instiga a pensar em mim, no mundo, nos outros. Pensar, simplesmente. Fazemos isso o tempo todo, mas quando paramos para realmente pensar, notamos que perdemos tempo demais com coisas que não deveriam ocupar tanto a nossa cabeça. Enfim, papo de doido, né?! Pois é assim mesmo que os textos de Eliane Brum me fazem sentir – e eu adoro isso. Nunca escrevi sobre ela porque ficava cheia de dedos, achava que precisaria de muita inspiração para expressar à altura o quanto essa mulher contribui, com passagens de sua vida de repórter, para que eu seja uma Débora melhor.

Com cara de cansada e feliz ao lado da Eliane, no ano passado

Mas deixei essa bobagem pra lá e é com a Eliane, que conheci pessoalmente em 26/5/09, durante o 4º Jornalirismo Debate – Jornalismo Literário, que estreio a Com Letra Maiúscula, seção fixa do blog (pelo menos a intenção é essa). E o que me motivou a falar sobre ela agora foi o Escrivaninha Xerife, que acabo de conferir, com o qual ela se despede da Editora Globo. Ia simplesmente twittar sobre isso, mas Eliane Brum merece um pedacinho do meu tempo – e muito mais do que 140 caracteres. Espero, com essas minhas palavras tortas e digitadas às pressas, não estar passando a impressão para quem não a conhece de que seus textos têm um quê de autoajuda ou “riponguisse” (eu hein, sai pra lá!). Leiam alguns textos e entenderão o que quero dizer.

Eliane está de saída da Época, onde atuava como repórter especial, mas continua com a coluna Nossa Sociedade no site da revista, para a qual escreve às segundas-feiras. É autora dos livros Coluna Prestes – O avesso da lenda (Artes e Ofícios); A Vida que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial), ganhador do Prêmio Jabuti em 2007; e O Olho da Rua – Uma repórter em busca da literatura da vida real (Globo). Li os dois últimos e os recomendo sem pensar duas vezes – mergulhei em ambos e, de certa forma, me transformei.

Espero que essa porto-alegrense o cative como fez comigo. Respeito sua coragem, reconheço sua trajetória, admiro o carinho que tem com todas as pessoas que passam por sua vida. E agradeço imensamente pelos textos simples, emocionantes e extremamente inspiradores.


Desativa-se uma casa

10/07/2009
Foram 13 anos. O coração fica pequenininho e os olhos, úmidos. Para isso, basta lembrar que o lugar que tive como minha segunda casa por tanto tempo será desativado. Amanhã, o prédio localizado na Rua Euclides da Cunha, 264, deixará oficialmente de abrigar o Centro de Ciências da Comunicação e Artes (CCA), da Universidade Católica de Santos (Unisantos).
No Campus Pompeia, onde funcionava a antiga Faculdade de Comunicação de Santos (Facos) e também meu querido colégio Liceu Santista, um almoço de despedida marca o fim desse espaço acadêmico tão mágico para tanta gente. Mágico não apenas pelos tijolos feiosos, resistentes e tão característicos, nem pelo delicioso capuccino da cantina do Ricardo, que a Beth fazia como ninguém, ou pelos laboratórios de fotografia, de rádio, de TV e até o Codig e a redação. Mágico porque foi nesse prédio, que provavelmente virará poeira, que eu cresci, amadureci e me transformei em quem sou.

Lembro perfeitamente da primeira vez em que pisei lá: meus pais precisavam trocar eu e meu irmão de colégio, porque a mensalidade do anterior estava crescendo exorbitantemente, e passei por uma prova para atestar que eu tinha capacidade e conhecimento para ingressar na 2ª série. E confesso: eu, sempre péssima com números, contei com a ajudinha da minha mãe em uma ou duas questões de matemática. Sim, foi cola pura, mas a querida tia Deise, que aplicou o teste, não fazia a mínima ideia de que aquela dupla com carinhas tão puras seria capaz de tal transgressão.

Quando tudo começou

Quando tudo começou

Dali em diante, começou minha história de amor com esse lugar. Como mencionei logo de início, foram 13 anos – nove de Liceu Santista e quatro de faculdade. Sempre passei muito mais tempo lá do que na minha própria casa. Afinal, não eram só as aulas, havia também a educação física, os trabalhos em grupos, os cursos de teatro, dança e técnico em informática, o cursinho e, anos depois, novamente surgiram os trabalhos em grupo, o estágio na agência junior de jornalismo, o diretório acadêmico, o trabalho de conclusão de curso, a comissão de formatura…

Eu participava de tudo o que podia e, hoje, olhando para trás, acho que era uma forma de tentar alongar a permanência nesse espaço que até hoje me encanta e inunda de emoção. Emoção trazida pelas lembranças alegres e tristes, agitadas e ternas, distantes e eternas. Foram tantos aprendizados, encontros, desencontros, descobertas, brigas, farras, amizades e amores que imaginar aqueles corredores e o pátio vazios me parecem um pecado, como se estivessem privando outros jovens de sentir o espírito gostoso emanado por aquelas portas, janelas e carteiras.

Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, mas com o boom imobiliário que rola em Santos, creio que o campus será comprado por alguma construtora. E, quando passar em frente do novo condomínio e olhar para os novos moradores, sentirei como se tivesse sido desalojada para que aquelas pessoas invadissem aquela casa que era minha até pouco tempo atrás.

O coração aperta, as lágrimas brotam, e as lembranças, eternas enquanto duraram, ressurgem, nítidas, vivas e sempre belas. Essas palavras escritas às pressas são meu luto pelo fim de um lugar que será sempre meu.

Lá, no pátio

Lá, no pátio